quarta-feira, 12 de julho de 2017

Um anjo de professora, um exemplo

Tenho grandes e preciosas lembranças da minha infância, mais precisamente dos anos em que frequentava clandestinamente as aulas da minha tia-professora Vanja, irmã do meu pai. Quando digo clandestinamente é porque eu não era aluna dela de verdade, mas carinhosamente atendendo ao meu pedido, levava-me para assistir as aulas que ministrava em um colégio municipal em uma pequena cidade do interior da Bahia.
Consigo lembrar-me com nítida precisão do sorriso dela quando contava suas histórias na sala de aula, da melodia de sua voz quando cantava uma canção para a turma entre as várias que faziam parte do seu repertório de música infantil. Para alguns não poderia ser considerada uma cantora, mas para nós crianças aquela voz era o despertar para um mundo de alegria, fantasia e sonho, era como a voz de um anjo que nos levava a outra dimensão.
Nos sentávamos em círculo, então, ela começava a contar suas histórias, cada uma mais empolgante do que a outra, enquanto falava ela gesticulava, girando no centro dele, olhando para cada um de nós, mudando a entonação da voz quando precisava, nos envolvendo em um mundo fantástico da imaginação. E eu realmente viajava. Foi ela quem me deu meu primeiro livro, acho que sequer lembra-se disso, certamente nem sabe a importância que teve na minha construção como leitora.
Tia Vanja não era apenas uma professora que preocupava-se somente em ensinar as letras e números, ela ia além, era como uma mãe para algumas daquelas crianças, era como um anjo que transmitia esperança e sabedoria. Ela ensinava muito mais, ela ensinava amor, solidariedade, respeito e união. Crianças que sem perspectiva de ter uma festa de aniversário em casa por conta da falta de recursos, se deparavam com uma festa carinhosamente preparada por ela. Era lindo ver o brilho nos olhos outrora tão apagados pela desesperança, quando entrava na sala de aula decorada com esmero pela professora. Ela fazia um bolo de festa, docinhos, decorava a sala com balões e ainda lhes dava um presente. As vezes eram muitos aniversariantes no mês, então todos comemoravam com uma grande festa.
Hoje, neste momento de pura nostalgia, recordo-me com imenso carinho que um dia quis ser como ela, que um dia sonhei em ver olhos tão brilhantes olhando para mim como pedras preciosas cheias de esperança e amor como daquelas crianças. Era lindo de se ver, hoje é lindo de recordar.
Por causa dela passei a amar os livros, as letras, às histórias contidas neles, a viajar nas páginas e a inventar minhas próprias histórias.  Porque ela me mostrou um mundo além daquele que eu conhecia hoje invento meu próprio mundo, arrisco-me nas letras e viajo no meu universo de imaginação.

Adriana Brasil


5 comentários:

  1. Não tem como não ficar emocionada com esse texto, repleto de amor. Pequenas coisas são as que marca tenho certeza que sua tia vez a diferença na vida de muita gente a sim como sua escrita irá fazer na vida do seus leitores. Te admiro muito!

    ResponderExcluir
  2. Sabe aquele texto que toca seu coração e te deixa com lágrimas nos olhos? pois foi assim que fiquei ao ler suas palavras. Sua tia deve estar muito orgulhosa de ter feito a diferença em sua vida. Parabéns pelo texto, lindo mesmo.

    ResponderExcluir
  3. Nossa, me senti tocada com as palavras. São tantas coisas que nos marcam e levamos para a vida. Lindo! Parabéns, Adriana!

    ResponderExcluir
  4. Ao ler esse texto me senti nessa sala de aula,pude imaginar minuciosamente o brilho dos olhos de Tia Vanja e fui capaz também de sentir a paixão com que ela lecionava e além disso,cuidava daquelas crianças.Sempre tem aquela pessoa que te influência em alguma área da sua vida,e posso dizer que assim como você também tive uma tia que me influenciou e ainda influência, principalmente no que se diz respeito a literatura.Parabéns não só pelo texto,mas pelas conquistas que o amor pela leitura pode te proporcionar.Te admiro muito Tia, sucesso!

    ResponderExcluir