sábado, 24 de junho de 2017

PEDAÇOS DA INFÂNCIA

Lembro-me da minha infância como se fosse hoje, dos momentos que não se foram por chegar a vida adulta. Ao recordar me vem à mente as memórias que marcaram a minha vida. 
Quando comecei a estudar, eu morava bem perto da escola, a cerca de cinquenta metros e foi muito especial essa fase da minha vida. Eu fazia a Primeira Série do Fundamental e ainda, à tarde, ia para o Pré, mas era mesma para brincar — o que criança mais gosta de fazer — para desenhar e também ia mais para comer. Danado! Lembro-me de que eu era muito travesso, brigava com os meus colegas de sala de aula e eu, como sempre, era castigado pela professora, com puxões de orelha, mas mesmo assim não “dava jeito”, e com isso o tempo foi passando e eu não mudava de série, só os meus colegas que passavam. O fundamental eu repeti todos. 
Demorei muito a aprender a ler e me lembro que para passar para uma outra lição, de tanto a minha professora repetir para mim, eu decorava e assim seguia para outra. E ela fazia isso logo no início da aula, para minha tortura. Eu era o mais velho da turma e era o rei da sala, ninguém mexia comigo, eu só tinha medo da professora, porque o resto me respeitava. Um dia eu arranquei o dente da frente do meu colega com um tapa. O caso aconteceu assim: Tínhamos saído para o recreio, e a merenda era, como de costume, arroz solto com ervilha e era mania da turma jogar arroz um no outro com a colher: a colher era de plástico, flexível, dava para puxar para trás como se fosse um baladeira, e num tom de brincadeira assim eu fiz e meu colega que naquele momento já era o meu arqui-rival, veio com uma pedra na mão para me acertar e eu logo me esquivei e infelizmente numa súbita reação quebrei o dente da frente do meu colega de sala. Como criança não guarda mágoa, tudo passou. E ainda bem que a professora não soube — nem me lembro se soube ou não — me vendo e acho graça de como eu fui na infância. 
Passaram-se os anos e a minha família mudou para outra comunidade que fica três quilômetros da escola e, por esse tempo, quando eu ia de casa para a escola, acordava cedo para tomar banho na água gelada do igarapé, chega me entortava todo de frio. 
Minha vida nesse período não era boa, muitas ou quase sempre eu tomava café com farinha como lanche da manhã — era o que tinha, antes de ir para escola. Eu sou de filho de uma família humilde do interior e, apesar das dificuldades, nunca desisti. Quando terminava a aula eu vinha no sol do meio dia — quente demais. Muitas vezes eu joguei os meus livros na água e dizia para a professora que tinha perdido ou molhado. Essa escola não tinha biblioteca, e quando mudei de lá, foi o momento que eu passei a ter contato com livros literários.
Nesse novo episódio da minha vida eu já sabia ler e foi aí que comecei a levar livros para casa, porém já estava crescido, quase adulto, e não li literatura infantil. O que livro que li várias vezes foi o livro de Fernando Sabino: Martini Seco e nunca mais parei. Fora os livros da biblioteca, tinha meu avô, com suas histórias e “causos”. Quando ele tomava alguns goles de pinga seu estro poético aflorava, e eu gostava de ouvi-lo bastante, e com o fruto das leituras e as histórias de meu avô eu tive inspiração para começar a escrever meus próprios poemas.

Não sei se é talento
Ou se vem da genética,
Só sei que no pensamento
Flui a arte poética(...).










Cleyson José Soares de Oliveira

2 comentários:

  1. Gostei de ver sua história agora se tornar pública. A foto também está muito legal!

    ResponderExcluir
  2. Muito bom, me vi na tua história. Meu avô também gostava de causos(ar) depois de tomar uma Cangaceiro do Norte!

    ResponderExcluir